O espírito aventureiro e liberto do escritor, poeta e viajante Victor Leonardi

 

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Sem pertencer a alguma religião, partido político ou tendência ideológica, o escritor, poeta e viajante Victor Paes de Barros Leonardi, 73 anos, escolhe o caminho da liberdade pessoal para viver sua vida na busca incessante pelo conhecimento. Com o espírito aventureiro e liberto, ele está sempre disposto a trabalhar pelo seu amplo interesse pelo mundo. “Há quem trabalhe de forma afunilada, num tema só até o fim da vida. Acho que devemos sim nos aprofundar num certo assunto para não abordá-lo superficialmente, porém, quanto mais amplo for seu interesse, melhor vai entender o tema em que é especialista”, explicou o “multiplural” Leonardi.

Fluente em cinco línguas e conhecedor de aproximadamente 80 países, Leonardi começou a ser viajante aos 14 anos, quando fez a primeira viagem fora do país com o pai que, segundo ele, era um grande viajante, porém, decidiu ser médico, permanecendo em Araras, SP.

De Araras para o mundo, Leonardi, em 1958, aos 15 anos de idade, deixou a cidade natal para trás, voltando a frequentá-la 46 anos depois. Porém, antes disso, percorreu o mundo, primeiro, para escapar da ditadura, depois, sempre a trabalho e por prazer. “Eu provoquei os acontecimentos na minha vida. Nunca parei”.

Depois de estudar inglês nos Estados Unidos, explorar a Patagônia, a Amazônia e o Nordeste, antes dos 20 anos, foi ser fazendeiro no sul da Bahia. Desistiu e foi estudar Direito em Ilhéus. Na época fundou um jornal para escrever contra os fazendeiros autoritários e a favor da reforma agrária. Mas com o golpe militar de 1964 seu jornal foi considerado subversivo e ele então foi morar e trabalhar em São Paulo, acabando a faculdade em São José dos Campos.

Engavetou o diploma de advogado, foi para Anápolis, Goiás, se casou com Nena (primeira esposa), e devido às atividades libertárias e democráticas, presentes durante toda a sua vida, ele e Nena, dias depois do casamento, foram perseguidos pela ditadura e decidiram sair do Brasil pela Bolívia. Era 1967. Aí então a vida de viajante iria se confirmar como seu destino.

Leonardi e Nena percorreram dez países da América do Sul, Caribe e América Central.  “Viajamos de trem, de ônibus, de navio cargueiro e a pé. Para sobreviver fazia trabalhos temporários como tradutor de peça de teatro, escrevia para jornais e fui radialista”, contou Victor. “Pela estrada, chegamos a Nova York, em um ano e dois meses. E de Nova York fomos para Paris”, era 1968.

Aproveitando Paris, Leonardi trabalhou e estudou Sociologia e História da Arte. “Não há preço que pague a oportunidade de estudar na Escola de Arte e Arqueologia do Museu do Louvre”, exalta.

Após 6 anos, volta ao Brasil e torna-se professor de História e pesquisador da Universidade de Brasília. E a partir daí os trabalhos como professor e pesquisador passaram a levá-lo para viajar, e, unindo o útil ao agradável, escrevia em todas as viagens. Ora conto, ora poesia, ora documentário. Na Espanha pesquisou arquivos espanhóis e portugueses e redigiu um ensaio com 420 páginas.

Também na Espanha escreveu a única fábula em 15 dias. Porém, só publicou 30 anos mais tarde, pois na época o foco era escrever para adultos. “Eu costumava contar histórias à noite para os meus filhos. A Nena dizia ‘escreve essas histórias que conta’ e então eu escrevi a aventura ‘A Montanha do Meio do Mundo’”, contou.

No Brasil, voltando a morar após a anistia decretada pela Assembleia Nacional Constituinte, se aventurou como professor novamente da Universidade de Brasília, como pesquisador do Núcleo de Estudos Amazônicos, pesquisador das aldeias indígenas do Amapá e percorrendo todas as cidades brasileiras de fronteira, ao todo 15.719 quilômetros. E entre uma pesquisa e outra, viajava pela Índia, Nepal, Áustria e também Estados Unidos, que por um semestre se aventurou como professor-visitante da Universidade da Califórnia.

Em 2002, aos 60 anos, após uma viagem a Veneza, a esposa Nena falece, depois de 35 anos de casamento. Meses depois, Leonardi foi morar sozinho no Rio de Janeiro. Em 2003 voltou a frequentar Araras. Era hora de retomar antigas amizades. E conheceu a psicóloga Márcia Michielim Tonholi, que nasceu na mesma rua que ele, porém, 21 anos depois, quando ele já viajava pelo mundo. Vivem juntos desde 2005. A partir de então, Victor e Marcia trabalham juntos em novos projetos de documentário e claro, de viagem.

Em 2011 decidiram se mudar para a Serra da Mantiqueira. E escolheram São Francisco Xavier, onde estão até os dias atuais. “Estamos perto de São Paulo, perto dos meus filhos e do filho da Marcia também, pois todos moram no interior de São Paulo. Gosto de ficar enfurnado aqui no mato, tomar café, comer pão de queijo. Mas aqui é a nossa base do foguete porque estamos sempre em viagem ao exterior”.

Ao todo são 20 livros publicados e escreveu mais de 30 roteiros para filme-documentário. O último livro escreveu em São Francisco Xavier e vai lançar no Festival da Mantiqueira a se realizar em junho próximo, no Distrito.

Atuais projetos: Leonardi está terminando um filme que foi convidado para fazer sobre um personagem que faz pacto com o diabo. Outro projeto é uma série sob o tema imigração nos últimos 20, 30 anos para a TV Brasil e ainda outro filme sobre a Armênia 100 anos do massacre que matou 1,7 milhões de pessoas e hoje, vivem em São Paulo 70 mil descendentes de refugiados armênios, informou Leonardi, que já declara. “Se o projeto não for aprovado vamos viajar do mesmo jeito para a Armênia”.

Tem muito trabalho pela frente e Victor revela que está atrapalhando a vida da Marcia como artista plástica, pois precisa dela para digitar os textos, atualizar o site, entre outras tarefas no computador.

Se o leitor pensa que Leonardi sempre trabalhou e trabalha com tecnologia de ponta ele revela seu segredo. “Minha tecnologia é simples e barata. Trabalho com tecnologia de ponta, fazendo a ponta do lápis o dia todo”, conta com bom humor. “Nunca usei máquina de escrever, computador e nem relógio de pulso. Uso lápis, borracha e papel. O resto vem de dentro”, revelou.

Nos próximos dias, Leonardi, sem saída, vai precisar fazer uma cirurgia. “Usar bengala para andar está me dando baixo astral”. O casal vai passar uma temporada em São José dos Campos, mas garante que volta para a atual base, em São Francisco Xavier.

 

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3 comentários sobre “O espírito aventureiro e liberto do escritor, poeta e viajante Victor Leonardi

  1. Victor Leonardi foi o melhor professor que tive durante o meu curso de História, apesar de que jamais fui formalmente o seu aluno. Quero dizer que aprendi demais com essa figura extraordinária durante gostosas conversas que tínhamos lá no bar do Cavalcanti, além, é claro, das lições aprendidas com a leitura dos livros que ele escreveu, em especial o ensaio Jazz em Jerusalém.

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